Viver Telheiras

A Ilha do Príncipe – o éden esquecido do Atlântico

Notas da aidnature.org / Março 11, 2014

A Aidnature esteve na ilha do Príncipe a gravar um documentário sobre a vida selvagem da ilha e a estreia deste filme vai ser em Telheiras! É já no próximo Sábado, dia 15 de Março, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro.

Revejam aqui o trailer e leiam a crónica que descreve os dois meses e meio que a Aidnature passou na ilha do Príncipe.

Aidnature.org na Ilha do Príncipe

Tínhamos o objectivo de em dois meses e meio no Príncipe conseguir imagens suficientes para produzir um documentário que apresentasse de forma introdutória a beleza natural e a importância da ilha para a conservação da biodiversidade no planeta. Não conhecíamos a ilha, e a informação que havia ao nosso alcance era proveniente de alguns livros, artigos científicos, e de algumas conversas que tivemos com portugueses que já trabalharam e que trabalham na ilha do Príncipe ligados à conservação da natureza, como o foram o Martim Melo, o Luís Costa da SPEA e o fotógrafo Alexandre Vaz, que muito contribuíram para o sucesso da expedição. Apoiados por estas informações partimos em direcção ao nosso destino prontos para completar a missão.

Na ilha do Príncipe ficámos sedeados na capital, Santo António, como a apoio do Bom Bom Island Resort, que nos cedeu uma casa bem confortável para a nossa prolongada estada na ilha. O que se percebeu rapidamente foi que a avifauna da ilha, incluindo as espécies endémicas, eram abundantes também na parte norte da Ilha. Tínhamos sido avisados que o Sul era a parte mais selvagem e virgem do Príncipe, mas de facto muitas das espécies mais belas e abundantes eram facilmente observáveis nas florestas secundárias mais no Norte da ilha. Foi para nós um alivio perceber que íamos de facto conseguir produzir o filme, se calhar com mais facilidade do que tínhamos pensado à partida.

Todos os dias nos lançámos para a captação das imagens, primeiro pelo Norte. Percorrendo os caminhos a pé, debaixo do calor e humidade tropicais, íamos observando as aves, répteis, insectos, gastrópodes, macacos, que se deixavam espreitar nos trilhos, caminhos e praias que íamos percorrendo. Observávamos comportamentos, locais de passagem, locais de descanso, ninhos, e muitas das imagens foram captadas na orla da floresta secundária, onde a floresta verde e virgem toca na floresta secundária, com os seus frutos e flores doces e exóticos, gerando uma zona de fronteira que é rica e que oferece uma variedade de alimentos que atrai muitas das espécies da ilha. Mas por mais que conseguíssemos observar a espécie A ou B no Norte, teríamos brevemente que nos encaminhar para o Sul inóspito e desconfortável da Ilha, onde os tesouros mais escondidos esperavam por nós.

No Sul, esperavam-nos atracagens de barco perigosas e difíceis, em que as malas estanques à prova de água foram testadas ao máximo; trilhos enlameados com subidas desesperantes; chuvadas avassaladoras e longas horas de espera, mas as recompensas valeram, e muito, a pena. Um dos grandes objectivos da expedição era filmar o Tordo do Príncipe. Uma ave endémica em alto risco de extinção, estimam-se que existam menos de 500 em toda a ilha. O tordo é uma ave que evoluiu num ambiente sem predadores naturais, e não tem medo de seres humanos, há semelhança do extinto dodot ou do ainda extante kiwi da Nova Zelândia. Esse comportamento destemido e até curioso – é frequente aproximar-se de quem entre no seu território – é a grande causa da diminuição dos efectivos populacionais. As crianças disparam as suas fisgas em direcção aos animais que facilmente são atingidos, para além de haver também registos de caça para alimentação.

Partimos numa manhã bem cedo, antes do sol nascer, em direcção a um trilho que nos ia levar a um local onde o nosso guia, o Balu, tinha observado uma toca de Tordo cerca de quatro meses antes, e onde tinha a certeza que íamos encontrar o animal. Esperançosos, subimos o trilho difícil durante duas horas e, chegados ao local, conseguimos ver a toca que o Balu nos mostrava, mas o Tordo não aparecia. Mas, como estava previsto, meia hora depois o Balu grita a cerca de 40 metros acima de onde estávamos, em direcção ao topo da montanha. Corremos a distância que nos separava do animal com o material às costas, e finalmente encontrámos o tordo do Príncipe. Está ele também a encontrar-nos, tão curioso como nós, e permaneceu connosco durante cerca de 10 minutos antes de se afastar outra vez. Acabámos por ver esse mesmo tordo mais quatro vezes ao longo da nossa estada no Príncipe, no seu território, devido ao seu comportamento confiante, o que nos convenceu ainda mais do perigo que a espécie corre efectivamente.

O tordo é apenas uma das 11 espécies endémicas que habitam a ilha, das que se conhecem claro está. O Príncipe ainda esconde alguns segredos muito bem guardados. O biólogo Martim Melo, que viaja regularmente às ilhas há vários anos, está convencido da existência de uma ave que vive na floresta, e está determinado em encontrá-la nos próximos anos, talvez até meses. Estes endemismos são preciosos e variados, para além de improváveis, e são o foco do interesse de alguns dos visitantes da Ilha. O turismo de Natureza, eco-turismo, turismo de trekking e de aventura são recursos económicos reais actualmente, e para locais como pequenas ilhas ricas em biodiversidade, uma das poucas formas de produzir riqueza. Modelos como o da Costa Rica servem de exemplo a estratégias que podem ser implementadas em lugares como este, e o nosso objectivo é também o de fomentar o interesse nesta área.

Os objectivos da expedição foram sendo cumpridos um a um, ao longo dos dias, e levaram-nos a conhecer praticamente todas as praias da ilha; vários dos picos e dos rios; o ilhéu do Jóquei – lar de um endémico e simpático passarinho que apenas existe num pequeno ilhéu a cerca de três quilómetros a sudeste da ilha; as ilhas Tinhosas – uma das principais colónias de nidificação de aves marinhas do Atlântico-este; e vários recantos e pequenas espécies de animais e plantas únicas no mundo, todas presentes numa ilha oceânica que nunca esteve em contacto com o continente africano.

O grande mistério do Príncipe é esse. Como é que podem ter chegado aqui anfíbios, tão intolerantes a águas salgadas, tendo que ultrapassar os cerca de 200 km que separam o Príncipe da África Continental? E os répteis? E o pequeno musaranho endémico só muito recentemente descrito como uma espécie nova? Há vários investigadores, oriundos de vários locais no Mundo, a tentar responder a estas questões, e foi para nós um privilégio observar estes animais em primeira mão, no seu habitat natural, onde evoluíram e criaram as suas populações actuais.

São Tomé e Príncipe é um dos países africanos mais pequenos, mas a sua taxa de endemismos é impressionante – é o pais do mundo com mais espécies endémicas por quilómetro quadrado, o que faz dele um verdadeiro jardim escondido para a evolução das espécies. As comunidades no Príncipe não valorizam a importância da biodiversidade da sua ilha. Não reconhecem valor traduzível em melhoria na qualidade de vida das mesmas, e são por isso necessárias mais acções de divulgação e sensibilização junto das pessoas, sobretudo dos mais jovens, mas também dos adultos, porque o tempo urge e não se pode trabalhar apenas nas gerações do futuro, mas em alguns casos do presente também.

Para a nossa equipa que viajou até ao Príncipe, o João, a Rita e eu, foi uma expedição inesquecível, e o nosso desejo é que se encontre uma forma eficaz e inteligente para a gestão da biodiversidade, a par com o desenvolvimento económico que também é necessário que se produza na ilha. Esperamos que o filme, que ficará pronto nos primeiros meses de 2014, tenha uma divulgação muito significativa e que inspire em quem o veja o mesmo espanto e incredulidade que nos provocou a nós.

António Castelo

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