Viver Telheiras

A vida dá tanta volta…

Histórias do Parque Hortícola / Maio 21, 2014

Sem pretender cavar demasiado fundo em terreno nostálgico, queria aqui recordar Telheiras há cerca de 40 anos.

Há 40 anos, a aldeia de Telheiras era uma rua de velhas casas térreas, parte delas abandonadas, de algumas moradias e de quintas como a de S. Vicente, com terrenos incultos à espera do golpe fatal do processo de urbanização.

Há 40 anos, algumas senhoras das proximidades vinham a uma quinta de Telheiras, explorada por freiras, comprar manteiga pura embrulhada em papel pardo e leite inteiro e puro, saboroso, enjoativo, acabado de mugir dos originais “bilhas” que as vacas carregam nas traseiras.

Há 40 anos, rapazes que residiam na Estrada da Luz atravessavam a 2ª circular quase a passo de caracol – o que hoje seria uma proeza digna de um filme de terror de Hollywood – para explorar os olivais de Telheiras. Recolhiam dúzias de ampolas médicas fora de prazo que alguém lançava num lago artificial criado pela exploração do barro há muito mais do que 40 anos, onde se localiza hoje a Praça Central e a entrada do Metro. Nas imediações do actual parque hortícola os rapazes colocavam as ampolas nos ramos das oliveiras e aperfeiçoavam a pontaria com pressões de ar que cuspiam chumbinhos.

Há 40 anos, como hoje, existiam “coisas” boas e “coisas” más em Telheiras.

O tempo passa, o espaço muda de funções. Ainda assim, é com muita satisfação que assistimos em Telheiras à repetição de ancestrais práticas do “semear, esperar, regar, esperar, colher saúde”, antes vitais à sobrevivência do físico e hoje, à renovação da mente.

Já não se produz manteiga nem leite puro, saboroso, enjoativo, em Telheiras, é verdade. Já não se atravessa a 2ª circular senão a salvo de pontes, mas não deixei ainda de pensar nos tais chumbinhos que os rapazes da Estrada da Luz por aqui devem ter deixado nos seus tiros ao alvo que eram as ampolas. Entre chumbinhos inteiros e os deformados pelo estoirar das ampolas, será que alguém achou algum desses chumbinhos? É que, sem querer cavar demasiado fundo no talhão da nostalgia, dava-me tanta satisfação tê-los na mão e recordar o valor da liberdade que este rapaz da Estrada da Luz sentia, há 40 anos, nos olivais de Telheiras…

E ao mesmo tempo ajudavam-me a completar o banal título desta crónica e transformá-lo num com muito mais significado… “A vida dá tanta volta…para ficar no mesmo sítio“.

João Lourenço, talhão 9

Histórias do Parque Hortícola / Maio 21, 2014
  • Cristina

    Que bela crónica! Bem escrita e cheia de significado. Até é certificada por um código de barras!

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