Viver Telheiras

Bem-vinda, Sonia! (histórias de uma recém-chegada e de uma chegada já há um tempo)

De Telheiras para o Mundo / Junho 25, 2015

Hoje esta crónica volta a ser escrita a quatro mãos e com duas cabeças a pensar. Já não sou uma, somos duas galegas a escrever desde Telheiras para o mundo.

Daqui, a Sonia, a nova Voluntária Europeia do Centro de Convergência de Telheiras. Venho de uma vila perto da Corunha, Bergondo, e para além de ter viajado em  muitas ocasiões a Portugal, nunca fiquei muito tempo cá, mas sempre gostei da gente, cultura e idioma… Fiz uma visita à María na Páscoa sem saber que meses depois ia voltar… mas para ficar!

Cheguei a Telheiras um bocado perdida por causa de uma confusão com a María para falarmos por telefone. Comecei a perguntar às pessoas do bairro onde é que estava o Centro de Convergência de Telheiras e não me sabiam dizer. Acabei por chegar ao Centro Comunitário e encontrei a María. Tudo isto serviu para dar um pequeno passeio pelo bairro e fazer uma ideia de onde ia trabalhar.

Apesar deste pequeno imprevisto, no dia 13 de Junho, tive a oportunidade de conhecer o que serão os meus próximos meses de trabalho, os meus próximos companheiros de trabalho, e o bairro que terei a oportunidade de conhecer e colaborar. Vinha com muitas expectativas e muitas incertezas. Mas ainda que as minhas expectativas fossem altas, não esperava que a realidade fosse ainda melhor. Para além de ter conhecido um espaço de trabalho, encontrei um segundo lar. Para além de companheiros de trabalho, encontrei umas pessoas que considero que serão os/as meus/minhas amigos/as. Além do bairro que terei a oportunidade de conhecer e colaborar, encontrei uma motivação verdadeira, de tentar fazer um bairro por e para as pessoas.

E daqui, a María… Já lá vão quase cinco meses em Lisboa. Já passou o inverno, a primavera,  o verão e parece que voltamos à primavera outra vez. As flores foram crescendo, os turistas aumentando e os tuk-tuks colapsaram  Alfama. Foi o Santo António, e as sardinhas no pão estão quase a acabar (mas a música pimba ainda se continua a ouvir cada noite desde a minha janela). A TAP foi vendida e o metro foi vendido, mas nem consigo ter tempo e vontade para ficar atenta à política e economia do País.

Lisboa continua a fascinar-me. Mas há dias em que amo esta cidade e há dias em que reconheço abertamente a minha frustração perante situações diárias que de facto têm a ver mais com uma questão cultural da sociedade portuguesa do que com a cidade em si. A lentidão portuguesa às vezes aborrece-me, outras faz-me mesmo feliz (a vida sem pressa é mesmo boa). A capacidade de começar a falar do desemprego e acabar por falar da pele do bacalhau faz-me até sentir vontade de fazer uma tese de doutoramento sobre a capacidade de dispersão e abstração das pessoas deste país.

Sim, há dias em que o meu desespero e pouca paciência já não têm mais espaço dentro de mim, mas sempre acaba por acontecer alguma coisa que faz com que me reconcilie e apaixone de novo por este lugar. A lentidão das pessoas a caminhar no metro (quem já morou em Madrid ou Barcelona sabe do que estou a falar, das pessoas sempre a correr e bater umas contra as outras). O sorriso da senhora da frutaria, sempre a perguntar como é que correu o dia e a conversar comigo, tanto faz se há fila ou não. A Avenida Almirante Reis a cheirar a caril e especiarias. A senhora indiana da esquina a cumprimentar. A Baixa cheia de luz e cheiro a Atlântico com os barcos a passar à Margem Sul. O pôr do sol no Cais do Sodré e os concertos improvisados à volta de qualquer esquina. Lisboa conquistou-nos a muitas pessoas de fora que viemos cá e decidimos voltar.

E enquanto há dias que chego mesmo chateada a casa por causa de costumes, jeitos de viver, políticas, formas de trabalhar e de se organizar que não consigo perceber neste país, se desde a Galiza me perguntam o que estou a fazer cá, a resposta é sempre a mesma: a nossa relação é amor-ódio, mas sempre há muito mais do primeiro do que o segundo.

Já lá vão cinco meses em Lisboa, e já lá vão cinco meses a perguntar-me se algum dia terei a força para ir-me embora sem que a saudade acabe por me fazer voltar.

 

María é uma jovem do norte de Espanha que colabora com  o Centro de Convergência de Telheiras através do Serviço de Voluntariado Europeu. Galega e de coração transatlântico, é educadora social, curiosa e viajante. Depois de morar um ano em Lisboa, cidade que a fez “alfacinha”, passou a trabalhar em diferentes entidades sociais e educativas da Galiza para finalmente voltar a terras lusas através do Serviço de Voluntariado Europeu.

A Sonia é pedagoga e educadora social, natural da Galiza, amante de cães, da praia, de viajar e descobrir o mundo lá fora. Tem trabalhado durante vários anos na área social e agora vem experimentar a realidade lisboeta. É a menina mais sorridente que vão encontrar em Telheiras a conversar com qualquer pessoa!

“De Telheiras para o mundo” é um conjunto de crónicas sobre as suas vivências e reflexões inspiradas no bairro de Telheiras e na cidade de Lisboa.

De Telheiras para o Mundo / Junho 25, 2015

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