Viver Telheiras

Crónica de uma carícia

De Telheiras para o Mundo / Novembro 26, 2015

Sempre que chega o momento de escrever esta crónica enfrento-me com a grande pergunta: escrever… sobre o quê? Hoje por acaso alguém me disse que podia escrever sobre as carícias e achei até interessante o repto. É assim um bocado poético demais, mas um bocado de poesia nem faz mal ao mundo. Achei interessante também porque o outono chegou a Lisboa, a este país e a este lado do mundo com agitação demais. Uma guerra, atentados, machismo, fascismo, a casa suja, Lisboa a chegar ao fim, as saudades de casa e da família, a Troika, a corrupção, a manipulação, um presidente de Espanha que suspende debates eleitorais para comentar um jogo de futebol na rádio, fronteiras fechadas, “a culpa é dos refugiados”, a França bombardeia a Síria…

93 feminicídios em Espanha. Silêncio, silêncio e mais silêncio.

Há dias ou semanas em que uma pessoa se sente sozinha contra o mundo e, por sobrevivência, tem mesmo de procurar carícias ou, o que vem sendo a mesma coisa, as prendas pequeninas que no dia-a-dia vão aparecendo pelo caminho.

Ontem adormeci chateada. Fomos à manifestação do 25 de Novembro contra a violência machista e, como mulher feminista e que sempre esteve ligada aos movimentos em defesa dos direitos das mulheres, fui com uma vontade imensa de berrar, de dançar e celebrar o facto de estar num espaço de partilha com mais mulheres a lutar a favor de um mundo com equidade e mais justo connosco. Pessoal, o que se passa nesta cidade nas manifs? Como é possível, para além da escassa participação para estarmos na capital de um país, ninguém se mexer na rua? O que vamos conseguir numa manif em que somos como ovelhinhas a caminhar sem sequer abrir a boca. Onde é que vamos reivindicar os nossos direitos se não é nas ruas e juntas? Acreditem mesmo que voltei a casa triste e com a sensação de estar numa luta perdida. E por sobrevivência, quando chega esta altura em que a lua cheia e o mundo fazem com que me converta num lobo a uivar no meio da noite, tenho mesmo de procurar essas carícias e miminhos que ainda existem na terra.

Assim, hoje acordei com esse repto de escrever sobre as carícias, fui tomar duche e achei que era dia de agradecer. Agradecer que durante estes dez meses estão a acontecer coisas imensamente lindas nesta cidade. Que para além das pessoas que agora já fazem parte da minha vida para sempre, cada dia Lisboa oferece-me uma carícia para me dizer “Olha, que estás cá!”. Agradecer o cheiro a castanhas nas ruas, e as folhas secas no chão, agradecer cada sorriso de vizinhos e vizinhas de Telheiras que já nos fazem sentir mais deste bairro que do nosso próprio, as piadas da Conceição do Espigasol, o café quentinho da manhã da Matilde, ou os miminhos do Jacquie e o Vasco no Melkia. As luzes de Natal na Baixa, os abraços dos meus colegas de casa, a voz da Mayra Andrade ao vivo ou uma foliada improvisada nalgum clube da Rua Madalena. Obrigada Lisboa, por esta luz de inverno e este frio que já me deixa sair à rua com o meu casaquinho vermelho. Obrigada por cada carícia que recebo nesta casinha, que é formada por várias casas, bairros, ruas e pessoas e que me fazem acreditar que ainda há algo de cordura neste mundo de doidos.

As minhas carícias de hoje são para todas as mulheres que lutam com raiva e ternura na vida, sempre a dançar e sempre a sorrir.

PS. E obrigada a George Harrison por ser sempre a minha banda sonora favorita na hora de procurar a calma e inspiração precisas para escrever estas crónicas :)

 

María Mascuñana

María é uma jovem do norte de Espanha que colabora com  o Centro de Convergência de Telheiras através do Serviço de Voluntariado Europeu. Galega e de coração transatlântico, é educadora social, curiosa e viajante. Depois de morar um ano em Lisboa, cidade que a fez “alfacinha”, passou a trabalhar em diferentes entidades sociais e educativas da Galiza para finalmente voltar a terras lusas através do Serviço de Voluntariado Europeu.

A Sonia é pedagoga e educadora social, natural da Galiza, amante de cães, da praia, de viajar e descobrir o mundo lá fora. Tem trabalhado durante vários anos na área social e agora vem experimentar a realidade lisboeta. É a menina mais sorridente que vão encontrar em Telheiras a conversar com qualquer pessoa!

“De Telheiras para o mundo” é um conjunto de crónicas sobre as suas vivências e reflexões inspiradas no bairro de Telheiras e na cidade de Lisboa.

De Telheiras para o Mundo / Novembro 26, 2015

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