Viver Telheiras

Junho sem sol

Isto é o da Joana / Junho 21, 2013

Lembro-me que quando era miúda junho era o meu mês preferido. Não sabia que se chamava assim, mas era o significado que mais feliz me fazia. Junho era o final do ano letivo, era o começar dos tempos de verão, com as idas à praia com os tempos livres, em que os cadernos se deixavam de lado e nos concentrávamos nos desenhos sobre nada. Era o tempo em que, por mais cedo que acordássemos, cheirava a creme e calor e o sol da manhã era amarelado, como um abraço gigante que nos dava os bons dias, e a tarde se prolongava até à hora do jantar, com passeios de bicicleta que nunca saíam do mesmo sítio, brincadeira irrepetível.

No final do ano preparávamos as festas, com as canções que tínhamos aprendido, com as obras de arte que nos tinham ensinado. As canções saíam desafinadas e as obras eram feitas de papelão e cola que se despegavam ao mais pequeno toque. Mas eles, os pais, não viam nada disso. De lágrima no olho e de câmara na mão, de peito inchado de orgulho, lá estavam a celebrar os feitos dos petizes imparáveis.

Junho significava três meses inteiros de saber-viver, sem os trabalhos de casa, sem horas de ir para a cama, sem a responsabilidade que nos iam ensinando.

Junho era bom, junho sabia a verão.

Mas junho tem-nos falhado. Junho tem sido de um São Pedro indeciso e de um Santo António desmoralizado. Não tem sido do sol que nos aquece o sorriso e nos conta da alegria que são as festas da capital, quando os bairros castiços de Lisboa são música e sardinhas, são manjericos e pregões que fazem corar as pedras da calçada.

Os lisboetas têm ansiado a sardinha assada no pão, comida à mão como manda a tradição. Só que não tem sabido ao mesmo. Porque os braços não andam nus, porque as sandálias continuam no armário, porque a praia tem sido cheia de vento quando o sol espreita por entre as nuvens e todos nos enchemos dessa esperança de veraneantes antigos habituados ao bom que é essa alegria que só o sol nos dá.

O assunto é conversa de café, conversa de elevador, conversa da sala de espera do médico. É a conversa que temos com os nossos colegas à hora de almoço e a queixa que mais partilhamos com os nossos amigos ao fim de semana. Como se nos impedisse de sermos tão felizes quanto esperávamos.

Tem sido uma desilusão, São Pedro, não sei que mais te diga.

Mas… se eu fosse miúda ainda nada disto eu veria. Nada disto me preocuparia.

As brincadeiras no recreio teriam o mesmo encanto, mesmo que tivesse de vestir um casaco. Continuaria em êxtase por haver um arraial – mesmo que nem soubesse o que isso significava ao certo. Faria três mil flores em papel crepe colorido só para que a escola ficasse bonita e cheia de bandeirinhas e nem havia de reparar se as educadoras temessem que chovesse no dia combinado. Faria cabanas de paus no recreio e no meu espírito haveria essa incrível certeza de que podiam mesmo vir a ser casas a sério. Chover lá dentro não seria sequer uma opção.

Nada, não notaria nada.

Porque na vida de uma criança e no espírito da miúda que eu fui não havia chuva. Não havia tempo. Não havia junho. Havia o fim de tudo o que era bom e o começo de algo que podia sempre ser melhor, sem expectativas deslocadas, sem desilusões de coisas que não posso mudar.

Que bom que seria ser miúda novamente para não perder pitada do mundo que não é como eu quero, mas que me dá tanto!

Joana Martins

Fotografia: João Martins

Isto é o da Joana / Junho 21, 2013

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