Viver Telheiras

Nas linhas de Paris

Isto é o da Joana / Fevereiro 5, 2014

Nos dias em que somos turistas o pescoço vive na direção do céu.

(Disse-nos que éramos família. Que já tinha vivido no Areeiro e na Alameda. Que tinha papéis de Portugal. Das cinco Torres Eiffel que vendia à porta de Versailles por 1€, deu-nos seis. Disse-nos que era um brinde, por sermos família. E quando finalmente levantei a cabeça da carteira, vi que nos olhos dele havia qualquer coisa de bom, de humilde e de sincero que só tinha alegria por acreditar que parte do que podia ser uma recordação ansiosa e confortável estava ali mesmo. Em duas miúdas do Campo Grande – disseram elas, desconfiadas – que tinham parado dois minutos para lhe comprar cinco Torres Eiffel para pôr nos porta-chaves. Ele sorriu e nós sorrimos-lhe de volta. E virámos costas e ele voltou-se de novo para Versailles, à porta de um dos castelos mais exibicionistas do mundo, a vender cinco Torres Eiffel por 1€.)

– Onde quer que estejas sabes sempre quando não estás em Portugal. Não é? – perguntou-me.

Lá fora o mundo deslizava depressa, com uma luz que não era Lisboa. Não eram sequer os subúrbios. Era outro mundo, daqueles castanhos, de fábricas de vidros partidos e grafitis sem propósito. De silêncio. Uma ilha deserta onde só vivem carris e carruagens.

– A nossa luz é mais branca – respondi-lhe.

Cada estação era acompanhada de cheiros de gente com destino certo. Quando alguém agarrou as portas do comboio, que apitava, zangado, para que um desconhecido pudesse levar consigo uma bicicleta.

– Merci beaucoup! – agradeceu-lhe, ofegante, nesse tom de voz que se espanta e se anima com as boas ações de quem não procura.

Mudámos a hora bem depois de termos escolhido a viagem. Quando se vai tem-se pressa de chegar e quando se chega conta-se que voem, enfim, as preocupações que insistem em não partir. Pelo menos nesses dias há uma suspensão do mundo de sempre, da rotina de todos os dias. Talvez todos precisássemos desse mundo paralelo, um matrix menos desolador onde não se escolhe o comprimido azul ou o vermelho.

A perdição estava depois, nas linhas e cores e números e letras por todo o lado.

Mais do que as nossas. Oh, muito mais do que as nossas! E no entanto toda a gente se movia como se fosse fácil desviarem os corpos umas das outras. Enquanto eu me desorientava na confusão. Não descortinava o princípio e o fim, não reconhecia nomes de ruas nem sou boa a avaliar perpendiculares. A gincana tornou-se um divertimento, no meio de “oui’s” e “voilà’s” que, decerto, nunca disse na altura devida.

Mudei de bairro. Mas por quatro dias. Vivi numa casa que não era minha, decorada como se fosse. A chuva bateu ao de leve nos vidros dessa casa de teto baixo, de gira-discos, de luzes amarelas, de conforto e recordações de alguém. Deitei-me sabendo onde estava, acordei a querer ficar mais um pouco.

Nos dias em que somos turistas o pescoço vive na direção do céu. Quão incríveis podem ser todos os edifícios, todas as conversas, todas as luzes, todos os espetáculos, todas as ruas, todas as lojas, todas as comidas, todas as crianças, todas as pessoas, todos os vestígios de uma vida qualquer que parece não estar ao nosso alcance.

(E se estiver? Paramos para olhar para o céu na nossa própria cidade?)

A minha Lisboa de luz branca e sorriso fácil tem o meu amor todos os dias do ano. E quem me dera que o mundo olhasse para ela com o encanto de quem se espanta e se anima com o que não procura. Como se fossemos todos família.

Joana Martins

Isto é o da Joana / Fevereiro 5, 2014

Últimas

Projectos Comunitários

TELHEIRAS EM MOVIMENTO_28 Setembro_banner
Newsletter banner
GEPE-banner
BN_NWLT_LX•CONNECT
  • BMOR3 Apoio AJEC Apoio JFL APCL Logo Apoio ART_site Apoio Esquadra Apoio UITN logo Apoio CNE 683 Escuteiros 2 Apoio
  • Centro Comunitário de Telheiras Apoio Voluntários de Protecção Civil de Telheiras_apoio Associação de Pais da Escola Básica e Jardim de Infância de Telheiras Apoio Julgado de Paz Apoio ETPL Apoio refood apoio
loading website

Aguarde um momento porfavor.