Viver Telheiras

Pedalar em família, parte 1 – Começar é o mais difícil

O Ciclista Urbano / Maio 28, 2013

Se optar pela bicicleta para as deslocações do dia-a-dia é raro para o cidadão comum, quando há uma família para transportar o caso torna-se ainda mais complicado.

De todas as razões que impedem alguém de dar este passo, a família, sobretudo com crianças, é uma das mais fortes. Muitas razões são simplesmente desculpas e esta também o é, mas menos.

Andar de bicicleta em família não é impossível, de todo.

Há imensas variáveis a considerar, desde a idade das crianças, da destreza e capacidade física de cada um e da envolvente geográfica que varia muito e pode ser determinante. Começar a pedalar num bairro com pouco trânsito e central não será a mesma coisa que começar a pedalar num bairro com imenso trânsito e velocidades excessivas.

De qualquer forma, há sempre uma solução para começar, nem que seja – no limite – metendo as bicicletas no automóvel, comboio ou autocarro e começar a pedalar numa zona que seja propícia para as primeiras pedaladas. Começar a pedalar desde a porta de casa até ao destino é o ideal, mas pode não começar dessa forma. É preciso é começar.

O primeiro passo é o mais difícil. É preciso sair da zona de conforto, é preciso lidar com a logística associada, tirar bicicletas de casa, etc, ter em conta as condições atmosféricas e, com crianças, ter que lidar com a “lentidão” com que as crianças enfrentam este ritual.

Querer, querer mesmo, é determinante. Será sempre mais fácil pegar nas chaves do carro, destrancar o fecho centralizado, abrir as portas de trás para que as crianças se instalem nas suas cadeirinhas e arrancar. Ou então, ligar a televisão e as consolas de jogos e deixar que as crianças se divirtam toda a tarde. “Eles adoram!”, mas é preciso contrariar a modernização da infância e a Rua é perfeita para isso, quando bem explorada.

O primeiro passo a dar é… o primeiro, providenciar bicicletas para todos. Para todos os que vão pedalar, entenda-se, porque uma criança de 9 meses não pedala mas pode ser transportada numa cadeirinha adequada e desfrutar do passeio com o resto da família. Aliás, transportar uma criança “à pendura” é uma boa opção e pode ser feito durante uma série de anos, mesmo quando já sabem pedalar, no caso de o trajecto não ser adequado às capacidades da criança, seja a distância, seja o trânsito ou até o ritmo, que nem sempre pode ser lento.

O segundo passo é “ir”. Sem se experimentar não se sabe o que é e a percepção de quem não sabe, neste tema, é sempre muito negativa.

O terceiro passo é “ir outra vez”. Por muito exaustivo que eu fosse aqui, tentando enumerar cada aspecto e pormenor da coisa, só mesmo experimentando uma, duas, três e mais vezes, se vai ultrapassando os obstáculos e desafios que esta “modalidade” tem.

Parece difícil, não é fácil, mas o retorno de todo este investimento é espectacular. Se andar de bicicleta é bom, fazê-lo com a família é muito melhor. Adultos e crianças passam a ser crianças de diferentes gerações, partilhando a sensação que só a bicicleta dá. Adultos e crianças que usam a sua própria energia para se deslocarem até um destino e não apenas “às voltinhas”. Aliás, são precisamente as voltinhas, tipo carrossel nas pracetas e parques, que fazem com que as crianças, mas também os adultos, se fartem da bicicleta, sobretudo quando os brinquedos concorrentes, os electrónicos, são muito mais estimulantes.

Há um outro lado, muito importante, que normalmente não é tido em conta. Quem se desloca de bicicleta não faz necessariamente as mesmas coisas e da mesma maneira que faria de automóvel ou de transportes públicos. Apesar de parecer negativo, este aspecto – a alteração de alguns hábitos – é na realidade muito positivo e é normalmente uma das vantagens mais referidas por quem optou por este meio de transporte.

Passar a viver mais localmente, trocar destinos mais longínquos por destinos igualmente interessantes mais próximos, fazer turismo na cidade onde se vive, trocar restaurantes do outro lado da cidade por aquele restaurante do bairro que nunca visitámos, conhecer, mas mesmo, os parques e museus locais e sentir a cidade enquanto pedalamos por ela, são coisas simples que acabamos por negligenciar quando andamos fechados dentro de um automóvel. Em família multiplica-se este efeito pelo número de membros do agregado.

Começar é o mais difícil. Daí para a frente é sempre a melhorar.

(Na próxima semana: Parte 2 – Até onde podemos ir, pedalando?)

César Marques

O Ciclista Urbano / Maio 28, 2013

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