Viver Telheiras

Perto da vista, perto do coração

Cães, gatos e outros factos / Dezembro 7, 2015

Ao longo dos anos tenho encontrado vários cães e gatos na rua. O mais recente foi este mês, um gato grande, laranja e magro, que passava na minha rua. Só lhe dei atenção quando, no outro dia, o vi ferido. Tinha um lado a cabeça tão inchado que não se via um dos olhos. Temi que fosse ficar cego. Passado uns dias, vi-o de novo e, para meu alívio, vi que já não tinha o inchaço. Mas já era tarde, já não me era indiferente.

Lembrou-me o cão que encontrei há três anos. Estava a conduzir no Eixo Norte-Sul a chegar a Telheiras quando vi alguns carros a desviarem-se de um cão a correr entre as faixas. Saí para Telheiras com o coração nas mãos, estacionei no primeiro lugar que encontrei e corri o mais rapidamente que pude até ao sítio onde tinha visto o cão. Encontrei-o mais à frente e tentei posicionar-me de forma a encaminhá-lo para a berma enquanto fazia sinais para os carros abrandarem. Um carro parou e com a ajuda do rapaz que de lá saiu conseguimos encaminhar o cão pela via de entrada no Eixo Norte-Sul. Corremos os três, em contra mão, até à rua dos cafés. Entre corridas, aproximações, paragens e mais corridas fomos encaminhando o cão para uma rua mais calma.

Até que há o momento em que o cão pára. Pára, olha para mim e espera. Sabe que o vou prender e deixa-me fazê-lo. Parece que me está a dizer: Estou a confiar-te a minha vida. É bom que saibas o que estás a fazer. Não é submissão, é cumplicidade. Não é dominância, é responsabilidade. Passado uma semana encontrámos os seus donos. Estava perdido.

Desengane-se quem descarta a possibilidade de ajudar um animal por crer que não podemos ser responsáveis pela vida dele. É uma escolha nossa ajudar ou não. Tantas vezes que passei, infelizmente, por cães e gatos na rua e não fiz nada. Não por acreditar que devo “deixar os animais em paz”, “deixá-los livres”, “na rua onde são felizes”… mas porque decidi que não tinha condições para me responsabilizar. A simples esterilização pode trazer mudanças dramáticas na vida dos animais que vivem na rua.

Era neste impasse que me deparava agora em relação ao gato laranja. Faço algo ou não?

Dos gatos que vemos na rua, há gatos que foram abandonados pelas pessoas com quem viviam e gatos vadios descendentes de gerações que vivem sem contacto humano.

Há quatro anos ouvi um miar incessante a caminho de casa. Descobri que vinha de uma bolinha de pêlo preto com uns olhos amarelos enormes. Uma gatinha que miava entre os carros estacionados para quem a quisesse ouvir. Não me deixou tocar-lhe mas estava tão persistente nos seus chamamentos que deduzi que estava perdida da sua família humana. Não podia estar mais enganada. Nunca ela tinha estado dentro de uma casa nos seus 3 ou 4 meses de vida. Com a ajuda de um casal, conseguimos apanhá-la e levei-a para casa. Assim que a soltei em casa fugiu e não a vi durante três dias – moro num T1. Hoje, corre até à porta para me cumprimentar quando chego a casa e não se cansa de festas e mimos no meu colo.

Mas será que roubei a liberdade a esta gata antes “selvagem”?! Será que, dando-lhe a escolha de voltar a viver na rua, com outros gatos e liberdade para ir onde quiser ela deixava a nossa casa? Não. Todos os dias (desde que foi esterilizada) que a deixo passear o dia inteiro pelos jardins da nossa rua. Vai até onde quer e volta quando quer. A verdade é que nunca, nem uma vez em quatro anos, passou uma noite fora de casa.

Nenhum animal prefere não ser amado. A definição de animal em liberdade que inclui esta realidade é na nossa cabeça. Se comunicarmos de forma que nos entendam e sintam confiança em nós, todos os animais escolhem o afecto. A verdadeira liberdade tem a ver com condições de vida que satisfaçam as suas necessidades e bem-estar e não com rejeição de contacto e cuidado.

Enquanto decidia o que fazer em relação ao gato laranja, pus um pedaço de cartão e uma manta velha debaixo do banco do jardim, para descargo da minha consciência. Nessa mesma noite encontrei-o lá deitado. Quando me viu, olhou para mim, sereno, por longos minutos. É um olhar que atravessa a alma e nos faz pensar nas injustiças do mundo.

Já conhecia esse olhar. Um dia em que chamava a minha gata preta para casa encontrei um gato lindo, tigrado, cinzento, com uma cabeça grande num corpo magro. Apareceu ali, à minha porta e ficou sentado a olhar para mim. Todos os dias, durante um mês inteiro ali o encontrei quando chegava a casa do trabalho. Não sabia nada dele, onde dormia, de onde viera, o que queria de mim. Mas aquele olhar… Todos conhecemos o olhar seguro e sábio que os gatos têm. Mas ver esse olhar num corpo magro e abandonado, atravessa-nos o coração. Com o apoio de uma vizinha, adoptámo-lo e faz agora parte da nossa família.

Não sei onde está o gato laranja agora. Mas não. Não posso levá-lo também para casa. Adoptar é salvar uma vida lindíssima do sofrimento em que vive. Mas já sei que logo a seguir encontrarei outro cão ou gato na rua. O meu limite é aqui.

São milhares os gatos e cães que são abandonados, enjaulados e mortos por ano, em Portugal. É uma realidade tão chocante que é impossível de assistir. E é por isso que eles vão viver e morrer longe da nossa vista, nos canis, associações, para nos pouparem o coração. Eis a verdadeira desgraça: Enquanto cães e gatos reais sofrem invisíveis, apaixonamo-nos por ideais de estética e personalidade e deixamo-nos levar num frenesim de criação excessiva.

É urgente mudar esta realidade. Para isso é iminente parar a procriação de cães e gatos, sendo fundamental esterilizar e castrar. Adicionalmente, é essencial rejeitar a crença falsa que discrimina os animais abandonados e sem raça definida como se fossem menos apropriados ao nosso lar.

Por favor, não compre animais. Adopte e esterilize.

Além da Trela

Além da Trela tem como missão promover uma relação excelente entre donos e os seus cães, com base na confiança, respeito e alegria, através de técnicas positivas de aprendizagem.

Cães, gatos e outros factos / Dezembro 7, 2015

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