Viver Telheiras

Pó e brita e a paciência infinita

Isto é o da Joana / Maio 29, 2013

Telheiras está sempre a mudar.

Têm-lhe mudado as ruas, colocaram mais semáforos, apertaram os lugares de estacionamento. No lugar de um matagal nasceu uma escola básica, de entre um caminho de oliveiras cresceu um jardim de infância. Pensaram uma biblioteca, abriram caminho para hortas comunitárias que são a menina dos olhos de todos os que se lhes dedicam. Na Estrada de Telheiras passámos de casas sem norte a casas para quem tem mais sorte. De um espaço em branco apareceu a Praça Central, as fontes que a acompanham, a saída do metro, ajardinada como convém.

E para que isto tudo vá acontecendo, há semanas em que só me apetece desesperar.

Telheiras fica intransitável, quase insuportável. Os jardins, por falsos acordos, ficam ao abandono. No alcatrão surgem desvios que deixam desorientados quem aqui vive e quem por aqui passa. Os jardins passam a pertencer aos cães, “perdido por cem, perdido por mil”.

No meio da confusão das buzinadelas, Telheiras torna-se poeirenta e despida do gosto que temos nela. E apetece sair para o meio da estrada, levantar os braços, gritar a todos que tenham calma, que arranjem formas de se respeitar mesmo quando há caos.

Mas às vezes não há forma, não há tempo, não há espaço.

Começam as obras e ninguém é avisado, “pois que tem de se fazer, menina!”. Eu cá acho bem, acho uma belíssima ideia. Não gosto de buracos na estrada.

Mas também não gosto que me ocupem a rua com uma escavadora.

Cavam e descavam, bip bip para a frente, bip bip para trás, rec rec raspa no chão e torna a levantar a garra gigante que teima em cair pesadamente para depois começar tudo de novo. E os carros a tentarem passar enquanto espreitam o que se passa, curiosos.

E depois… volta a calma. Ao fim de semana, quando a escavadora dorme, silenciosa, e as grades protegem a brita e o pó. Os carros atarefam-se nos planos de tempo livre, o autocarro continua a fazer a mesma curva apertada com uma mestria que só visto.

Mas os papagaios verdes e brancos de bico amarelo que costumam bicar nas bagas das árvores não se atrevem a aparecer novamente. Têm medo do barulho. Decerto que se voltassem só estariam a ralhar demasiado alto uns para os outros, queixando-se da falta de paz. É que nem as bagas boas devem valer tanto stresse!

Nós, os telheirenses, remediamo-nos. Continuamos a passar pela mesma rua, mesmo que tenhamos de fazer uma gincana ou de pegar na bicicleta ao colo. Encolhemos os ombros, espreitamos os avanços, atiramos com os sacos das compras mal chegamos ao hall do prédio, com os dedos encarnados de sangue.

Eventualmente o pó há-de assentar, os jardins hão-de ser notados como uma das belezas que nos dá orgulho e as fontes serão cheias, dessa água que serve de piscina a muitos cães mais calorentos do bairro. Eventualmente. Até lá encher-nos-emos nós de paciência.

Telheiras está sempre a mudar. É por uma boa causa. Sempre foi.

Respirar fundo e começar tudo de novo. Há-de passar.

Joana Martins

Isto é o da Joana / Maio 29, 2013

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