Viver Telheiras

Qualidade de melhor amigo: compreensão

Cães, gatos e outros factos / Setembro 19, 2013

 “A cadela não percebe português.” “Porquê, veio do estrangeiro?”

Não falam, mas temos a certeza que percebem o que dizemos. No outro dia estava a treinar uma cadela muito medrosa quando uma rapariga passou com o seu cão e ficámos a conversar. Ao perceber que a cadela estava com medo e a tentar fugir começou a dar-lhe indicações, “fica, fica” dizia ela. A cadela nunca aprendeu a palavra “fica”, de modo que “fica” tem para ela tanto significado como “maçã” ou como “brsh”, é um som que vem de alguém com boas intenções, mas apenas isso. Comentei, em tom de brincadeira, que a cadela não devia perceber português, ao que me perguntou surpreendida: “Porquê, veio do estrangeiro?”. Ela, como tantos de nós, tinha a certeza que os cães compreendem o que dizemos.

Mas se não percebem a língua, o que é que faz com que os cães nos compreendam e correspondam tão bem?

Os cães têm uma particularidade genética fantástica que lhes permite mudar o fenótipo (a expressão dos genes que é fisicamente observável) em pouquíssimas gerações. É por isto que é possível desenvolver raças tão díspares como a do pincher, mais pequena que um gato, e o dogue alemão, do tamanho de um pónei.

Assim, foram sendo seleccionados para evolução da espécie, cães com características mais “humanas”. Algo que não é possível fazer em tão pouco tempo com qualquer outra espécie. Foram escolhidos cães que olham nos olhos das pessoas, que respondem à nossa voz, que nos seguem… Curiosamente, até mesmo características um pouco enganadoras… Por exemplo, o objectivo de desenvolver raças braquicefálicas, isto é, que têm o focinho achatado, como o bulldog, o boxer e o pug, foi torná-los mais parecidos com a nossa face humana. Outro exemplo é a cor dos olhos: foram sendo seleccionados pelos criadores, cães com os olhos escuros, desta forma temos a sensação que nos olham sempre nos olhos pois não distinguimos a pupila (círculo interno) da íris (círculo externo).

Mas qual é a característica que foi desenvolvida que lhes confere o título de “melhor amigo do Homem”?

Eu diria que é a capacidade de nos integrar como guias para as suas próprias vidas. Ao contrário de, por exemplo, o gato, o cão admite que sejamos nós a dirigir o seu comportamento. Há muitos cães que preferem a sua família humana a uma família canina. Esta é a magia que nos enche o coração ao lidar com um cão! Ao contrário do que possa ser a ideia comum (falarei deste tema numa próxima crónica) esta capacidade não está relacionada com poder ou dominância mas sim com a capacidade extraordinária que os cães têm de nos ler, e assim, de se relacionarem connosco como mais nenhuma espécie consegue.

A rapariga continuou a dar indicações à cadela, mas ao mesmo tempo, e penso que sem se aperceber, foi mudando a sua postura. Continuei a conversar com ela enquanto notava noutras coisas que ela comunicava com a cadela para além dos sons. Apercebi-me da atenção que lhe dirigia, do tom doce da voz, ambas reconfortantes para a cadela; da posição do corpo convidativa (de cócoras) e inofensiva (de lado e não directamente de frente) e das festas meigas que lhe dava. Colocou-se subtilmente entre a cadela e a rua movimentada e deixou o seu cão afastado das duas, o que demonstrou uma atitude de protecção e criou um ambiente seguro. Alternava também entre olhar para a cadela e olhar para mim, de forma que o olhar nunca se tornou algo ameaçador. Tudo isso a cadela leu e compreendeu: é alguém que me quer bem. Foi-se deixando ficar no sítio (mesmo não sabendo o significado de “fica”) porque compreendeu o que a rapariga lhe “dizia” através desta comunicação complexa e extraordinária que tem vindo a evoluir entre as nossas espécies.

Margarida Meira

Cães, gatos e outros factos / Setembro 19, 2013

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