Viver Telheiras

Sei o bairro de cor(ação)

Isto é o da Joana / Maio 15, 2013

Sou dessa geração que só se lembra de aqui ter vivido. Fui de todas as escolas, conheci todos os cantos, por aqui tive as minhas primeiras paixões e as primeiras desilusões também. Sei de cor todos os atalhos (mesmo os que foram surgindo), sei o nome dos senhores das várias lojas, vivo no meu bairro de alma e coração.

Talvez seja bom, nesta primeira vez que nos conhecemos, apresentar-me. Depois disso poderemos Viver Telheiras a par.

Vim para Telheiras em 1990, quando o Alto da Faia não era mais do que terra e betão. Não havia luz, não havia cafés, não havia o Eixo Norte-Sul. A vida era pacata, não havia tantos transportes, não havia tanto barulho.

Apaixonei-me pela casa de bonecas do Jardim de Infância no dia em que o meu pai só me levou a conhecer a educadora. Não fui simpática para ela, mas não quis de lá sair. Deixaram-me ficar por ali a brincar e no dia seguinte disse que queria ir brincar com “aqueles meninos”. Ainda hoje, ao ver as fotografias, sei o nome de quase todos – continuo a encontra-los na rua. Somos vizinhos, outros são meus grandes amigos.

Sei as ruas que têm mais trânsito em certas horas do dia ou o melhor lugar (o mais secreto!) para estacionar à hora do almoço. Sei pedir a quantidade certa de areias na Espigasol – embora faça sempre batota e acabe por comer mais do que a conta – e envergonho-me de todas as vezes que a Dona São diz que já não me via há muito tempo.

Na Escola Básica nº 57 tivemos uma horta e eu trazia rabanetes para casa, só porque eram giros. Talvez o bichinho da terra tenha ficado, porque quis muito ter um dos pedaços das hortas comunitárias que foram sorteados há uns meses. Não tive sorte. Para compensar(-me), arranjei ervas aromáticas que tento cuidar com carinho. Mas elas não gostam assim tanto de viver na minha marquise…

Tive catequese na Igreja de Telheiras, mas eramos um grupo pequeno, de três crianças, e não me pareceu tão divertido quanto poderia ser. Que quando somos crianças é assim que nos conquistam – com a alegria no aprender. Quis fazer parte dos escuteiros, mas nunca cheguei a ter coragem para me inscrever. Continuo a gostar de os ver na sua farda tão aprumada, com as cores que os distinguem, e penso se seria uma pessoa diferente se tivesse assumido esse compromisso.

Noutros compromissos, fui do coro da ART e aí aprendi a tocar viola. Não me consigo esquecer do cheiro do lar de idosos de Telheiras, onde tinha as aulas, aquela mistura de quente e de gente, de sopa e conforto, de lentidão. A meia luz, o diapasão, a dificuldade em fazer as notas no braço da guitarra que parecia demasiado largo para as minhas mãos sapudas.

Não estudei nunca na biblioteca porque sempre preferi a solidão do meu quarto, mas posso requisitar os livros que vivem naquelas prateleiras e só isso faz-me sentir que pertenço de alguma maneira.

Cresci e fui de Erasmus. Afastei-me do bairro, mas só por meio ano. Nesse tempo, perdi o 1º Festival de Telheiras, mas foi um orgulho ver as fotografias onde tantos dos meus participaram convictamente. No tempo que estive fora, Telheiras pareceu-me o bairro mais bonito do mundo!

Consigo, mesmo à distância, sentir o cheiro do bairro no verão, reconheço as árvores que mais me fazem despertar as alergias. Sei os sítios mais úteis para me abrigar da chuva ou o melhor banco de jardim para saborear o sol.

Vinte e três anos passaram por Telheiras e por mim, desde que aqui cheguei. O meu caminho deixou de correr somente pelas ruas do bairro, mas ao final do dia sabe bem vir respirar aqui.

Joana Martins

Isto é o da Joana / Maio 15, 2013

Últimas

Projectos Comunitários

Newsletter banner
GEPE-banner
BN_NWLT_LX•CONNECT
  • APCL Logo Apoio ART_site Apoio Centro Comunitário de Telheiras Apoio Voluntários de Protecção Civil de Telheiras_apoio CNE 683 Escuteiros 2 Apoio Associação de Pais da Escola Básica e Jardim de Infância de Telheiras Apoio Esquadra Apoio refood apoio
  • AJEC Apoio BMOR3 Apoio Julgado de Paz Apoio ETPL Apoio UITN logo Apoio JFL
loading website

Aguarde um momento porfavor.