Viver Telheiras

Sete mil milhões de vizinhos

Isto é o da Joana / Fevereiro 11, 2015

“O senhor está bem?”

Somos 7 mil milhões de nós, espalhados até ao infinito que conhecemos.
Nascemos em terras diferentes, crescemos em casas distintas, seguimos religiões opostas e contaram-nos histórias que não compreendemos. Mas, nas dores físicas e nas dores de alma, somos todos iguais.

Em cada um de nós mora um espírito mais ou menos prático que tenta esquecer o que nos torna semelhantes: a dor, as lágrimas, o amor e as memórias. Falamos das propriedades que temos e achamo-nos generosos no respeito que dispensamos ao vizinho do lado.
Somos desconhecidos em quilómetros ou metros de snobismo ou timidez quando talvez bastasse termos o à-vontade de perguntar: “O senhor está bem?”.

Não sabemos se estamos bem e temos medo que nos perguntem o mesmo. São mais as vezes em que duvidamos do que as em que temos certezas absolutas, mas o mundo ensina-nos a proteger o que temos, as ideias que nos passam pela cabeça, até as decisões impensadas que tomamos (às vezes sem justificação plausível). Temos essa fraca mania de querermos ser coerentes; quando, em cada ponto do mundo, a incoerência é a única variável comum.

Nas dores da alma falta o controlo. Quando um desgosto de amor inesperado nos surpreende deixamos de saber quem somos. Quando aquele amigo que significava tanto nos falha, somos incapazes de processar a perda. Quando a pessoa que mais amávamos no mundo desaparece, ficamos sozinhos.

Talvez nem todos queiramos admitir que amamos alguém. Porque isso, mais tarde ou mais cedo, há-de magoar.
De saudades, de desilusão.
Quando, em qualquer língua, assumimos que amamos, aumentamos exponencialmente essa sensação de, na solidão, deixarmos de ser o que ‘verdadeiramente’ somos, de deixarmos de ser capazes de proteger o que, mesmo sem amor, continuamos a ter.
As dores físicas levam-nos as forças nesta altura. Se ninguém nos segurar.

Por isso não perguntamos aos outros se estão bem. Não lhes queremos ver na cara a solidão de quem se perdeu, mesmo que por um momento. Porque isso nos torna responsáveis pelas dores que não são nossas. Somos demasiado exigentes com o sucesso, o final feliz. E achamos sempre que temos já pouca força física para dispensar.

E se amanhã ganhasse ânimo e perguntasse ao seu vizinho, olhos nos olhos, se está bem?
Será que ele ia querer responder?

 

Joana Martins é especialista em redes sociais e multimédia e vive em Telheiras desde que se lembra. Fala muito e escreve menos do que gostaria. Mas em tudo o que escreve há-de haver sempre um denominador comum: as pessoas.

Isto é o da Joana / Fevereiro 11, 2015

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