Viver Telheiras

Telheiras e o Minotauro

O Ciclista Urbano / Fevereiro 18, 2015

Minos, filho da princesa Europa, desejava tornar-se no rei de Creta, sucedendo ao seu padastro Astério. Pediu então a Poseidon, deus dos mares, para o ajudar nessa tarefa, o qual lhe enviou um magnífico touro branco para que Minos se afirmasse como o preferido dos deuses. Uma vez alcançado o seu intento e ao contrário do que havia prometido, Minos não sacrificou o touro a Poseidon pelo que este, com a ajuda de Afrodite, levou a esposa de Minos, Pasífae, a enamorar-se da besta branca e dele ter um filho, nascendo este meio humano e meio touro.

A lenda do Minotauro, essa criatura improvável nascida de uma partida dos deuses, é o retrato da relação dos urbanitas para com os veículos motorizados. Tal como na lenda também os automóveis nos despertam paixões pela sua força, velocidade ou capacidade de trabalho e, em contrapartida, reclamam igualmente uma dose aleatória de vidas humanas como condição da sua existência.

Se em Creta o rei Minos pediu a Dédalos que construísse um labirinto por onde o Minotauro fosse errando o resto dos seus dias alimentando-se de jovens atenienses que lhe eram sacrificados, já os labirintos de ruas e avenidas que formam a malha urbana dos nossos bairros devem ser vistos como o suporte físico de uma política de mobilidade que se pretende universal e não como local de sacrifícios.

Como em muitas cidades europeias também em Lisboa, depois de décadas de investimento no transporte motorizado, essa malha urbana encontra-se saturada. A presença massiva dos automóveis gerou um sentimento de insegurança nas nossas ruas, o qual afasta as pessoas de utilizarem os modos suaves, como seja poderem deslocar-se a pé ou de bicicleta para fazerem as suas compras, visitar os amigos ou deslocarem-se para a escola ou trabalho.

Recuperar as ruas para as pessoas tornando-as mais seguras foi a principal razão pela qual a Holanda dos anos 70 inverteu o seu paradigma de mobilidade. A bicicleta tornou-se o veículo mais popular e mais utilizado nos trajectos urbanos onde o uso do automóvel quase se reduziu ao transporte de cargas ou ao transporte de pessoas com mobilidade reduzida.

Mark Rutte, tendo nascido em 1967 em Haia terá vivido ao longo da sua infância todas estas mudanças. Em 2014 ficou célebre nas redes sociais uma fotografia em que aparece, já como Primeiro-ministro da Holanda, a ir ao encontro de Barack Obama conduzindo a sua bicicleta.

Esta fotografia lembra-nos que sempre fazemos escolhas, qualquer que seja a situação, pelo que não estamos obrigados a transformar-nos em minotauros de cada vez que nos deslocamos no labirinto.

 

Luís Carvalho é Arquitecto e enamorou-se de Telheiras desde o momento em que iniciou o voluntariado na Refood. Sócio da MUBi – Associação para a Mobilidade Urbana em Bicicleta é frequente vê-lo de bicicleta quando necessita de se deslocar na sua cidade. Nas suas crónicas irá dar relevo aos modos suaves de mobilidade como forma de percorrer e de viver a cidade.

O Ciclista Urbano / Fevereiro 18, 2015

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