Viver Telheiras

Viver Telheiras em 2013

Viver Telheiras em 2013 / Janeiro 10, 2014

Tal como a Joana, «sou dessa geração que só se lembra de aqui ter vivido». Quando, há uns anos, decidi sair de casa, não me foi muito difícil escolher manter-me por Telheiras. Não só pela memória, por conhecer os cantos e os atalhos, pelos amigos, pelos jardins, mas também pelo futuro: as oportunidades, as vontades, os projectos para o bairro.

Esta é uma visão daquilo que, para mim, foi Viver Telheiras em 2013. Durante os últimos 12 meses, em que estive a trabalhar na Associação Viver Telheiras, tive à minha frente uma realidade diferente da que chega aos olhos da maioria dos que vivem e trabalham aqui no bairro: a realidade das instituições e organizações que fazem o bairro. Por isso, para mim, este foi o ano das organizações, do trabalho em parceria e da cultura.

 

Os 25 anos da ART e os novos colectivos do bairro

O projecto da Refood tem tudo para ser dos mais falados, em todo o país, durante 2014. E esta crescente popularidade não está, em nada, descolada da inauguração do 2º núcleo da Refood em Lisboa, o de Telheiras. Faz agora 1 ano que a Refood Telheiras abriu portas, e fecha este ciclo com 100 voluntários que, todas as semanas, recolhem as sobras dos restaurantes, cafés e mercearias do bairro e as distribuem por quem mais precisa.

Pela mesma altura, no Instituto dos Registos e Notariado de Benfica, nascia a Associação Viver Telheiras com a vontade de pôr as organizações do bairro a falar umas com as outras e centralizar as novidades, as opiniões, e os eventos do bairro. E assim se lançou este site em Maio, numa versão experimental.

Apesar de inaugurado uns meses antes, foi durante 2013 que se estabeleceu verdadeiramente o Parque Hortícola de Telheiras. De Quinta de S. Vicente a espaço destinado a betão, passando por estaleiro das obras do metro, finalmente ali rebentam couves, abóboras, feijão e alfaces.  Aos 21 talhões disponibilizados pela Câmara de Lisboa, candidataram-se mais de 200 pessoas, muitas que ainda esperam por novos espaços para poder plantar a sua sopa. A todo este processo não foi alheia a pressão da Associação de Residentes de Telheiras (ART), que desde sempre defendeu a criação de hortas para os do bairro.

Em 2013 a ART fez 25 anos e festejou-os com a 4ª edição do Festival de Telheiras, de uma dimensão sem precedentes, num mix de artistas locais e artistas nacionais, workshops, concursos e torneios. Para além de ano de eleições internas, este foi também o ano em que a ART lançou o mercado biológico, que todos os sábados reúne uma mão de produtores nacionais  no centro do bairro.

 

A Parceria Local e o trabalho invisível

Um dos pontos altos de 2013 em Telheiras foi o Magusto. Não é todos os dias que centenas de vizinhos se reúnem só para estarem juntos, para ver o que vai acontecer, para comer umas castanhas e beber uma jeropiga.

A maioria não sabe, mas este foi o primeiro grande fruto da Parceria Local de Telheiras. O projecto da Parceria Local faz parte daquilo a que se chama trabalho de bastidores: é invisível, poucos sabem que existe, mas é fundamental. O objectivo é simples: juntar as organizações do bairro, falar, partilhar, planear, fazer. O Magusto agitou as águas, e 2014 promete mais ondas.

A participação neste projecto confirmou-me as expectativas: são muitas as organizações de Telheiras, onde abundam pessoas motivadas pelo trabalho em conjunto e em prol do bairro. E vale a pena conhecer melhor cada uma delas. É que todos os dias dezenas e dezenas de pessoas entram na Biblioteca Orlando Ribeiro, no Centro Comunitário, no Espaço 7 Ofícios da APCL, na ART, na Igreja de Nª Sª das Portas do Céu e no Templo Hindu. E quantos bairros têm tantas escolas como este? Com a abertura das novas creches, um miúdo que nasça em Telheiras pode ir a pé para a escola até entrar para a faculdade – e a Cidade Universitária também está mesmo aqui ao lado. Com o serviço de proximidade ou a Recolha de Brinquedos, a 19ª Esquadra tenta ir para além da segurança do bairro, e ainda há os Escuteiros e as Associações de Pais que todos os anos se esforçam por melhorar a vida do nosso bairro!

Virou-se o ano com 17 entidades a pertencer à Parceria Local e com a óptima notícia de que, durante 2014, este será um projecto apoiado pela Gulbenkian.

 

A Cultura escondida do bairro

Há quem ainda ache que Telheiras é um dormitório, um sítio onde não se passa grande coisa. E que talvez ficasse surpreendido se soubesse que, para reservar o auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro para um espectáculo, o melhor será reservar com uns quantos meses de antecedência… não que o auditório não esteja operacional. Está. Todos os dias. Só que todos os dias há coisas a acontecer na biblioteca. São concertos, teatros, exposições, lançamentos de livros, palestras, fóruns, workshops, e até stand-up comedy.

Este também foi o ano de afirmação do Cineclube de Telheiras. Em 2 anos de actividade, este grupo que nasceu na ART consegue ser já um dos mais activos do país. Durante 2013 foram anfitriões de revelações do bairro, de Lisboa, do Porto e até do Brasil. No entanto, diz-nos a experiência que mais de metade das pessoas que entram na Biblioteca e no Auditório não são de Telheiras. A meio do ano um dos jovens coordenadores do Cineclube apelava: «Visitem-nos, envolvam-se, não deixem a cultura morrer!». No primeiro dia de 2014, como tantos outros, o Pedro emigrou. As coisas existem, estão a acontecer, estão mesmo aqui, do outro lado da rua. E cabe-nos (não só, mas também) a nós – cidadãos, vizinhos – tomar conta delas. Ou assumirmos o risco de elas deixarem de existir.

Vale a pena conhecer o que há, e bastam 2 minutos na Agenda do bairro para ter uma boa noção da quantidade de pessoas, grupos, artistas que passam pelo bairro. E não é só quantidade: muito do que por cá passa é de facto muito bom. E estar num espectáculo ao vivo é sempre diferente, tem um gosto especial, um sabor a partilha que a TV e o computador não passam…

 

E 2014?

Comércio local. Ao contrário do que poderia ser expectável, no lugar dos que fecharam, outros reabriram logo de seguida (excepto o Chilli’s). A rua dos Correios dobrou o número de lojas durante 2013, e o centro histórico – junto da biblioteca – está a ganhar uma nova vida, que promete mais daqui em diante. Assim como com a cultura, o comércio do bairro só existe se nós – vizinhos – o apoiarmos. E com isto quero dizer: se nele comprarmos. A vida de Telheiras também rola à volta das mercearias e dos cabeleireiros, dos cafés e dos restaurantes. E quando nós os apoiamos e acarinhamos, eles sabem bem retribuir com coisas boas para o bairro! Da nossa parte, arrancamos 2014 a trabalhar com a ART e com a Junta de Freguesia do Lumiar para 2014 trazer novidades ao comércio que anima as nossas ruas!

E finalmente, o governo local. O ano ia a meio e tinha-se a confirmação que Telheiras não era uma das novas freguesias. Em Setembro foram as eleições, e o ano vira com um novo executivo a receber novas competências de gestão, nomeadamente a gestão dos espaços verdes, que tanto preocupou os telheirenses durante 2013. O ano de 2014, para a Junta do Lumiar, começou com um concerto de Gospel na Biblioteca de Telheiras (casa cheia). Durante o espectacular concerto, com uma energia fora do comum, a maestrina do coro deixou a mensagem: que 2014 não se avizinha fácil, mas que cabe a cada um de nós manter a força. E eu acrescentaria que, juntos, entre vizinhos e parceiros, temos muito mais força.

Que o 2014 de Telheiras traga mais momentos como estes! ;)

 

 

Filipe Matos

Associação Viver Telheiras

 

PS: Esta reflexão sobre o ano 2013 teve presente a memória do José Miguel Mendes Lopes.

Viver Telheiras em 2013 / Janeiro 10, 2014

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